sábado, 5 de dezembro de 2009

PAUSA PARA COZINHA: O OLHO DO PEIXE

Resolvi hoje que iria cozinhar, desde quarta-feira que estou  envergada para isso.

Bem de  hoje não passa .

Fui no mercado e me inspirei:

Peixe.

Não é o meu forte , mas um ou outro tipo eu me saio super bem. (Inventei um no laminado , que não suja o pirex e eu sou muito criativa no tempero.

Meus filhos e o ex adoram.)

Bem fui no peixe. Como recentemente cozinhei com um chef francês e fiz um excelente molho a base de carcaça , lógico que quis repetir o feito.

Fase 1 – Fui escolher o peixe no mercado, supermercado mesmo. Olhei, não achei o que queria , comentei com o peixeiro:

_ É hoje não tem file de linguado, ne?

_ Tem sim madame, do graúdo.

Olhei bem e não senti ele muito fresco.

No que ele afirmou de pronto:

_Chegou hoje , ontem nem tinha peixe, acabei de limpar.

Pronto me convenceu, a palavra mágica, acabei de limpar, isso então significava que ele tinha a carcaça...

_ Não, não temos. Já foi para o lixo.

_Ah então vai para o lixo?

_É , aqui não podemos nem nós levar para a casa. E não tem como passar no caixa essa mercadoria pois não esta listada. As vezes colocamos como sardinha e sai a carcaça a 3 reais.

_Isso quer dizer que o lixo , virou 3 reais.

O dialogo foi extenso e fiquei sem a carcaça.

Comprei mesmo assim o peixe graúdo e um quilo de camarão, limparia ele em casa e assim teria pelo menos a carcaça do camarão.

 Fase 2 -

Comecei a escolher uns legumes quando vejo um homem me chamando debruçado sobre os peixes.

Era um outro peixeiro que não tinha ainda aparecido e veio com a seguinte conversa:

_ Se a senhora pagar um cafezinho, eu arrumo uma cabeça , ai eu coloco junto com o camarão .

Pedi para ver a cabeça .

Era a maior cabeça que eu já tinha visto, disse que não, era muito grande e não era bem isso que eu procurava.

Ele se prontificou a cortar a cabeça e a esta altura eu já tinha acionado a irmã Paula que existe dentro de mim.

_ Ok, eu levo a cabeça!

 

Não preciso nem dizer que passei momentos inusitados tendo que passar o dinheiro do cafezinho para o peixeiro do mercado. Isso eu não imaginava que existisse assim, descaradamente.

Fase 3 - 

Bem , ao chegar em casa, dei o camarão para a minha funcionária nova limpar.

Ela nunca tinha visto, e quanto mais, limpado um camarão cru.

Eu que adorava fazer isso em criança, confesso que ha anos não fazia.

No momento da demonstração quando fui puxar a cabeça, explodiu aquela gosma laranja pelos meus dedos.... ai foi horrível.

Ela me perguntou se era tudo para limpar, claro que era tudo.

Mal sabe ela que antigamente para se testar uma funcionaria dava-se essa função : limpar camarão .

Mas como hoje é sexta-feira , era dia de pagamento e ela normalmente gosta de ir antes mesmo da ultima badalada das 12 horas, Fez sem reclamar, mas não deixou de comentar que estava passando mal  depois da limpeza pois aquela visão e o contato com o crustáceo não lhe caíram bem.

Whatever .

Fui trabalhar e cheguei lépida e fagueira para mergulhar na cozinha.

Fase 4 -

Liguei música, fechei a porta para não passar o cheiro para a casa, afinal era peixe,  né? E me pus a cozinhar.

Peguei todos os ingredientes, utensílios e deixei vir até mim a inspiração .

Veio.

Me organizei e abri o saco da cabeça do peixe.

Despejei numa bacia dentro da pia.

Assim que caiu eu pulei para trás e dei um berro.

O peixe fala!

Ou melhor o olho do peixe tem vida.

Claro que não estou dizendo que o olho do peixe me cumprimentou, não sou louca a tal ponto, o que estou tentando dizer é que tinha expressão .

O olho do peixe naquela cabeçorra olhava para mim.

Detalhe, meu filho que cozinha , havia me dito, para remover o olho antes de por na panela.

Vocês podem imaginar eu removendo o olho do peixe, aquele olho que estava me encarando???

Não, definitivamente eu não removeria.

Para dizer a verdade, resolvi que não faria mais nada com aquela cabeça . Sei que é pecado jogar comida fora, aquela cabeça estava lotada de carne de peixe,  mas eu confessaria isso depois com meu Deus. A minha veia culinária estava sendo ameaçada pela aquela cabeça e o melhor que podia fazer era aniquilá-la de vez.

Lixo nela.

E fiz a menção de pegar a cabeça para colocar num saco e jogar no lixo.

Não consegui.

Não pude tocar nela. Aquilo estava criando vida própria e eu me vi derrotada por uma cabeça em pedaços.

Peguei uma pinça enorme pra me ajudar neste feito.

Não consegui de novo.

A sensação de apertar a cabeça do peixe me deu tanta agonia que larguei pinça e tudo mais.

Solução: pus a luva de lavar louça e como uma pá, estendi minhas mãos e despejei no saco de lixo.

Pronto estava feito.

Demorou mas tomei coragem.

Fase 6 - ( a 5 ficou imbutida lá na confusão do olho, pia, agonia e não quis interromper o texto)

Agora era fazer a carcaça no camarão.

Precisaria remover os olhos, conforme meu filho me orientara e colocar tudo na panela para flambar no conhaque, por cebola, cenoura, enfim estava tudo em cima.

Ao olhar para a primeira cabecinha de camarão, quase chamei o Raul.

Não é ataque de frescura, cozinho  bem, podem acreditar.

Acho que não era o meu dia...

Resolvi então que faria o cald, somente com a carcaça que eu tinha coragem de manusear. Assim foi feito.

Licença poética :

Por duas vezes dois restos de animais marítimos , que deveriam estar no lixo,( pois eram na verdade  carcaça,  como o próprio nome já diz ) me  ganhavam no duelo.

Só eu mesma. Fim da Licença.

Flambei, coei, reduzi, removi impurezas, passei no chinoix de novo, reduzi mais e quando achei que estaria pronto.

Cheirei.

Eu normalmente não provo minha comida, eu só cheiro e apuro o sal e outros temperos assim.

Só na fumaça .

Dá sempre certo e eu gosto deste ritual. Eu puxo a fumaça com as mãos e me debruço um pouquinho sobre a panela, acho coisa medieval de bruxinha que fazia da colher de pau seu instrumento de magia.

Bem voltando ao caldo.

Ficou horrível.

Sim, o caldo.

O tal que me custou 3 horas na cozinha, não deu certo.

É ai que eu hoje ensino:

Quando tudo começa assim, desista. Mas desista antes de mais gastos .

Isso para não dizer que fiz vários tipos de peixe, um deles no forno.

Este , ao cheirar como de costume, achei com cheiro de peixe.

Eu sei que era peixe e não poderia cheirar a carne, mas sabe aquele cheirinho que ninguém gosta.

Era esse mesmo.

Apelei para o meu porteiro.

_ Severino , acabei de fazer um peixe posso mandar para vc, não esta excelente como de costume , mas esta fresco . Posso?

Ele claro que aceitou.

Mando sempre sexta e sábado, o a mais do que eu preparo para meus filhos. Risoto, macarrão, carne , enfim ele esta acostumado a receber a comida fresquinha . Prefiro mandar logo do que deixar na geladeira, ninguém acabar comendo e estragando. Assim ele fica feliz e aqui em casa tem o lema: acabou , acabou.

O melhor desejo é o do quero mais e não ter, pronto.

Bem falei isso para ilustrar minha relação com o porteiro. Ele aceitou para ter sempre a garantia de que vou continuar mandando.

Eu amei ele ter recebido pois assim dei seqüência para parte do peixe com cheiro de peixe.

Como não sou boba, fiz mousse de chocolate, anteontem.

Isso mesmo,, mandei junto um potinho com mousse. Assim adoço a boca do porteiro para ele não passar esta noite dizendo:

_A moradora lá do 802 ... coitadinha perdeu a mão da cozinha!

Isso eu não toleraria.

Seria minha derrocada.

Não Severino , isso não.

Obrigada mesmo por ter aceito e no seu próximo plantão eu pergunto se estava bom .

Até la já esqueceu o gosto do peixe e dirá algo para me agradar.

Mentira branca nessas horas são fundamentais....

Afinal preciso continuar com minha veia culinária pois faço dela uma terapia .

Que venham os olhos pois estou pronta para a próxima investida gastronômica!

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