Minha blusa vermelha ou
ela se chama Felizarda.
Felizarda, para mim D. Felizarda.
Um olhar cativante que traz junto, uma serenidade sem fim.
Na boca um sorriso franco e puro, os dentes se perderam no tempo, o que imprimi mais charme e carinho ao sorrir.
A primeira vez que eu a encontrei , ela estava no meio de outras vinte. Eu a elegi a minha preferida.
Foi assim que começou nossa história. Sem cobranças ou questionamentos.
Sem hora marcada ou compromissos.
A cada passagem por lá, o que passou a acontecer uma vez por mês , eu parava para levar alguma coisa.
Seu passatempo é fazer tapete de fuxico, sentadinha na sua cama, entre retalhos de malha e uma base de saco de ração , toquinha na cabeça , ela, com a ajuda de uma tesoura, vai tramando seu tapete.
Vai tramando seu tempo.
Eu perplexa de ver a habilidade com as mãos quero logo ajudar, pergunto se é para vender .
_ 10 reais. Ela responde.
Quero então levar esse.
_ Esse não pode ainda, não esta pronto.
Insisto que quero assim mesmo, esta ótimo como está, aquela mania de querer ser útil, prestativa.
_ Não, esse assim não pode, só quando acabar.
Um relâmpago de magnitude me invade e eu passo a entender.
Levar um tapete inacabado, era levar horas de ocupação. Como eu poderia pensar que estaria ajudando-a , comprando o tapete sem terminar.
O que ela faria , ainda mais que aquela era a ultima base que ela tinha com ela. Mais importante do que dez reais, é o tempo que ela gasta fazendo aquele tapete.
Sua vida esta impressa nas cores daqueles retalhos.
Faço questão de dar os dez reais e deixo então aquele tapete reservado para mim.
Numa outra visita para pegar o tapete, aquele já tinha ido embora para uma outra pessoa.
Não faz mal. Na verdade ela nem se lembrava que eu tinha reservado. Nem comentei.
Por outra ocasião levei uns sacos para que eu tivesse certeza de que estaria levando para ela Vida.
Sempre aquele sorriso , sua pele escura com rugas revelando uma idade avançada onde o tempo tem sido generoso.
Outra visita e pergunto o que poderia agrada-la. Queria levar o meu carinho mas também ser uma ponte para o mundo aqui fora e com muita humildade ela me pede meias, mas se não for atrapalhar.
Claro que não atrapalha D. Felizarda.
Com o tempo me acostumei a sentar na sua cama, fazer carinho e enche-la de beijos.
Muitos beijos para que sempre tivesse a certeza de que eu não me incomodo de beija-la.
Entrava e ia direto para o seu quarto.
Nada mais sabia sobre ela. Nem ela de mim.
Um dia , já cansada, na volta do trabalho a pessoa que dirigia para mim me perguntou se iríamos passar por lá.
Eu nem sabia que , onde estávamos, era o caminho da D. Felizarda. Estava querendo ir para casa, aleguei que já era tarde e que não tinha nada para levar para ela.
Ele insistiu, nem sei porque pois ele nem conhece D. Felizarda, mas quando ele me lembrou que o mais importante eu já tinha para da-la eu concordei em parar.
E foi nesse dia que aprendi com ela.
Cheguei já me desculpando pois estava ali somente para um beijo. Ela estava a voltas com sacolas.
Abria e fechava, procurava uma roupinha para colocar na boneca que ganhara há dois dias.
Uma boneca loura, bonita ainda, apesar de já ter emprestado seus melhores momentos para alguma criança. O único problema era que estava sem roupa.
D. Felizarda depois de algumas sacolas, encontrou uma bata e uma calça de bebê que serviu feito uma luva na boneca. Vesti-a e pus num carrinho de boneca em cima da poltrona que eu estava.
No seu quarto tem duas camas, duas cômodas, uma poltrona, um ventilador , uma televisão , uma lata de lixo e sacolas. Muitas sacolas.
E foi numa dessas sacolas que ela achou uma blusa vermelha.
Enquanto eu explicava que não tinha nada para lhe dar pois não esperava passar por ali, ela pegou a blusa vermelha de linha e me deu.
D. Felizarda já estava há alguns minutos a procura da minha blusa vermelha.
Ela dissse.
_ Vai ficar linda em você.
Meu primeiro impulso foi agradecer e devolver. Uma lucidez caiu sobre mim . Agradeci, sorri e aceitei , tks god! Não poderia cometer a desfeita que estava prestes a fazer. Recusar um presente vindo com tanto amor.
Eu me achando... eu que pensava que estava levando para ela alguma coisa, e ela , D. Felizarda me mostrando como ser feliz.
Quando ela me disse que estava contente com minha visita inesperada, eu contei a historia de que quase não iria la se não fosse o Carlinhos que trabalha comigo.
Ela sem titubear me disse:
_ Fala para o seu motorista que a D. Felizarda mandou um beijo para ele.
Ela não é disso, eu não disse quem ele era e assim sai de la pensativa e intrigada.
Como pode ver a vida la fora sem nem olhar de uma janela.
Ah propósito seu quarto não tem janela. É grande, arejado , mas sua vida é do banheiro , quarto, quarto, banheiro.
Tapete, malha, tesoura, sacolas.
Num outro dia onde o calor tomava conta da cidade, encontrei- a um pouco apática e ela me disse que era o calor. Um ventilador no teto não dava vazão a falta de vento.
Mas sobre a cômoda tem um ventilador.
_Posso ligar aquele ventilador???
_ Não, tenho que limpa-lo antes.
_Mas eu posso limpar.
_ Não, mas depois de limpar ele tem que ser consertado.
_D.Felizarda, ele não funciona???
E então prometi levar um na próxima visita.
Com muito carinho na voz, sentada em volta de retalhos e com um tapete a caminho ela sugeriu que eu então aproveitasse que o natal e seria o presente de Natal.
Até poderia D. Felizarda, mas o ventilador, vai segunda-feira que vem.
Até o Natal quero ainda fazer muitas visitas.
Até o Natal quero ainda te encher de beijos , descobrir o que te faz feliz.
Agora para você saber D. Felizarda.:
Feliz tenho ficado , ao descobrir que a minha visita, fora as de domingo quando o hospital recebe o carinho de algumas congregações que vão levar amparo aos doentes, é tão importante para você .
Feliz tenho ficado ao aprender com a senhora que podemos, ao nos chamarmos Felizarda , transformamos problemas em soluções , retalhos de malha em pedaço de tempo.
E assim vamos driblando a vida e distribuindo sorrisos, serenidade, carinho e camisa vermelha.
Obrigada por me fazer receber quando fui dar.
Obrigada por ser Felizarda, mesmo que morando há tantos anos na colônia Tavares de Macedo, em Venda das Pedras no ambulatório da Hanseníase.
Um beijo neste rosto lindo e nas suas mãos que entrelaçam os tapete, que um deles enfeita minha vida.

2 comentários:
Lindo,sem comentarios,
Bjs,
Albinha.
Nossa Albinha, não sabia que voce tinha passado por aqui. Obrigada querida. beijo grande
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